segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Capítulo 2: Assombrada

Amy foi internada num hospital psiquiátrico. Seus pais não poderiam fazer outra coisa se não abrir mão de Amy, era o melhor para ela. Ou pelo menos foi o que disseram a si mesmos. No entanto nos anos que se seguiram, Amy nunca recebeu uma visita dos pais, eles a renegaram e preferiram pensar que ela jamais existiu um dia, ou que tudo foi apenas um terrível pesadelo.
Quando chegou ao hospital, Amy foi submetida a vários exames médicos, mas os médicos jamais compreenderam exatamente o que havia de errado com a garota. Em seu prontuário dizia que a menina de quase 7 anos sofria de transtornos psicológicos com traços de esquizofrenia, epilepsia e forte tendência à violência. Amy foi trancafiada na área de doentes mentais perigosos e sofreu uma série de tratamentos de eletro choque. Ela não falava, não emitia se quer um som, recusava comida e tinha suas medicações eram injetadas à veia.
Dessa forma Amy passou muitos anos até a adolescência.  Amy não tinha controle de seus pensamentos, geralmente não sabia a diferença do que era real ou ilusão de sua mente, mas mesmo sendo tão castigada por todos os tratamentos ineficazes, Amy tinha consciência de que não estava louca, de que nunca esteve. Amy sabia no entanto que também nunca estivera de fato sozinha, e a companhia daqueles pensamentos e imagens a sequestrou da realidade a ajudando a passar por todos os anos no hospital.
Amy não possuía, de fato, consciência de que não deveria estar ali, tampouco possuía desejo de partir. Amy não sentia nada além daquilo que as vozes a faziam sentir.

10 anos depois 

Palavras estranhas são sussurradas lentamente para mim. Ainda não consigo encontrar o que me mantém aqui quando por todo esse tempo eu tenho estado tão vazia por dentro.
– Eu sei que você ainda está aí.
Era apenas um dia como qualquer outro no Hospital St Mary na cidade de St Augustine, Estados Unidos, 1697. No entanto algo estava diferente. Amy estava acordada como jamais esteve em toda a sua vida. Seus pensamentos agora pertenciam a ela.
Eu posso sentir você me puxando para baixo.
Uma batida na porta assustou Amy, seus olhos azuis procuraram e notaram cada canto da sala branca e acolchoada. Não era como se ela não soubesse onde estava, tinha completa noção de estar internada no hospital por ter assassinado sua irmã Bonnie, mas Amy de fato nunca foi capaz de estar presente naquele lugar realmente. Sempre esteve perdida em sonhos e lugares dentro de sua mente, mas agora não havia nenhum outro lugar em que estivesse a não ser naquele quarto e naquela cama.
A porta se abriu
– Bom dia, Senhorita Lee, está na hora de sua medicação.
Amy fixou os olhos na mulher velha vestida de branco que falava com ela. Tentou se levantar, mas os braços e pernas estavam presos a cama com algemas de couro. Percebeu com o canto do olho que a enfermeira se assustou ao vê-la se debatendo, então parou.
A mulher se aproximou lentamente com uma bandeja e a colocou numa mesa ao lado da cama, em seguida pegou uma seringa e drenou o liquido de um pequeno vidro e veio em sua direção.
– Apenas uma picadinha, como de costume.
- Não – disse Amy assustada e a enfermeira gritou derrubando a seringa que com um barulho ardido de vidro quebrando se espatifou no chão.
- Fique longe de mim! – gritou Amy.
A enfermeira saiu correndo para fora do quarto e Amy permaneceu quieta olhando o teto. Podia ouvir os murmúrios do lado de fora do quarto, os passos apressados e então um médico velho entrou pela porta curioso.  O médico pegou uma vela e foi em direção de Amy, quando ela se retesou ele sorrio.
- Não vou machucá-la, apenas quero examiná-la.
Amy assentiu.
O médico aproximou a vela de seus olhos examinando suas pupilas e então auscultou seu coração.
- Pode acompanhar meu dedo Srta Lee? – ele arrastou o dedo indicador no ar para um lado e outro e Amy o acompanhou com os olhos.
– Pode me dizer a quanto tempo esta acordada?
Amy pensou por um segundo – 15 minutos. Pode me soltar?
O médico olhou em dúvida para a enfermeira e então sorrio.
– Solte as pernas dela.
A enfermeira fez o que médico disse, mas seus olhos estavam esbugalhados.
- As mãos? – perguntou Amy
- Vamos com calma – disse o médico – sabe qual é o seu nome?
- Amy Lyn Lee.
- Sabe que dia é hoje?
Amy acenou negativamente com a cabeça.
- Hoje é dia 13 de dezembro, é seu aniversário Amy.
Amy pensou por um segundo – a quanto tempo estou aqui?
- 10 anos – disse o médico pasmo com o fato de Amy estar conversando. 3 horas antes quando ele passou para visitá-la ela estava completamente em estado de transe como ficou por exatos 10 anos desde que foi levada ao hospital. Os olhos abertos, porém perdidos, não falava, não comia. Agora Amy parecia completamente saudável. Não havia um fato lógico que explicasse aquela evolução em tão pouco tempo.
- Sabe porque está aqui Amy? – perguntou o médico cauteloso.
- Porque matei minha irmã Bonnie.
- E sabe me dizer porque fez isso?
Amy não respondeu. – Me sinto bem, quero que me solte.
O médico concordou. – Quero passá-la por uma série de exames, se você se comportar pedirei aos enfermeiros que a solte e a levem para a área de tratamento brando. Concorda?
Amy assentiu.
Depois de passar por uma série de exames o médico decidiu que Amy não era mais um perigo para os outros pacientes e a levou para um quarto da ala de tratamento de pacientes com distúrbios mais leves. Era um novo começo para Amy, agora que ela tinha consciência do que ocorria ao seu redor. Ao final daquela tarde Amy jantou com os demais pacientes, mas percebeu que eles tinham muito medo dela. Isso não a incomodou, na verdade Amy não compreendia porque, mas não sentia vontade de estar perto das pessoas, a solidão a fazia se sentir a salvo e livre.
Amy no entanto sabia que não estava completamente livre, ela podia sentir aquela coisa se contorcendo por debaixo de sua pele, aquele demônio que sempre esteve dentro dela, o mesmo que a fez assassinar sua própria irmã, mas Amy estaria mentindo se dissesse que não gostava da sensação. Era como uma fonte de energia inesgotável ali dentro dela, mesmo antes de recobrar a consciência, Amy sentia aquela sensação de poder e não era ruim. Na verdade Amy nem sequer conseguia odiá-lo por ter matado sua irmã, era quase como se fosse incapaz de sentir qualquer sentimento que não fosse um profundo desejo de liberdade.
Preciso sair daqui.
Amy foi para o quarto e esperou que as luzes apagassem, mas ela não dormia. Desde que foi internada naquele hospital, Amy jamais dormiu. Não era como se seu corpo precisasse descansar, ela possuía sua própria fonte de energia e naquela noite, Amy se sentia mais acordada do que nunca.
As luzes se apagaram, as vozes foram diminuindo. Silencio e escuridão tomaram conta do quarto e na calada da noite uma voz chamou pelo seu nome.
- Amy... Amy... Amy...
Eu sei que você está ai me observando, me desejando, eu posso sentir você me puxando para baixo. Estou sentindo você, amando você, mas não vou deixar você me puxar para baixo.
- Venha para nós, Amy...
De repente Amy sentiu um forte cheiro que ela não conseguia identificar, o quarto estava quente e seu ombro esquerdo começou a queimar, ela correu até a grade da janela e com o claro do luar pode ver uma mão que arranha por debaixo da pele. A dor era excruciante, mas Amy não emitiu um som. Lentamente a mão desapareceu e o fogo cessou e tudo ficou quieto dentro de sua cabeça, mas no segundo seguinte Amy estava contra a parede, sem poder se mexer, seu corpo erguendo-se do chão e ela podia sentir um toque em brasa que percorria seu corpo até sua área genital.
Amy lutou em silencio, mas não havia ninguém a não ser o ar. Aos poucos sentiu-se penetrar por uma força invisível, as vozes voltaram agora ainda mais altas, sussurravam seu nome com desejo.
Amy sentia, sentia o medo que pensou jamais poder sentir novamente, a dor e o sangue que escorria por entre suas pernas, e uma sensação de prazer que a fazia gemer por entre os dentes trincados e se contorcer enquanto era arrastada pelas paredes como se pesasse menos do que uma pena. Amy nunca sentiu nada parecido com aquilo antes.
Amy acordou deitada em sua cama com a luz do sol iluminando o quarto. Uma enfermeira entrou com uma bandeja de comida e ela fingiu estar dormindo. De fato Amy dormira, pela primeira vez em 10 anos, Amy dormiu.
Quando a enfermeira saiu fechando a porta, Amy levantou com um pulo puxando o lençol para se certificar do sangue que sentiu escorrer por suas pernas durante a noite, mas não havia nada lá. Teria tudo aquilo sido um sonho?


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