Amy passou o dia todo atormentada por aquelas lembranças, era tudo vívido demais para ser um sonho, e mesmo que a assustasse como o inferno, ela estaria mentindo se dissesse que não gostou da sensação. Por toda sua vida, mesmo quando criança, embora as lembranças estivessem borradas em sua memória, Amy sabia que nunca se sentiu contrariada com sua situação. Ela jamais desgostou das visitas noturnas, das paredes que sussurravam, das conversas dentro de sua cabeça. Era como se tivesse amigos ocultos que a acompanharam por toda a sua vida e mesmo que um deles a tenha feito assassinar sua irmã, Amy não conseguia sentir ódio, ela se quer sentia qualquer outra coisa com relação ao passado. Amor pelos pais, carinho pelos irmãos, medo, dúvida, desejo ou qualquer outro sentimento humano parecia ter sido arrancado de sua memória, as vezes como naquele momento em que Amy estava sentada ao chão, com os braços envolvendo os joelhos e tentando passar por cima de toda a névoa que era seu passado, Amy se perguntava se alguma vez chegou a sentir algum desses sentimentos.
Por outro lado, agora ela estava acordada de uma forma que nunca esteve antes. Sabia que não era coincidência, se estava acordada era porque a deixaram acordar. Amy sentia que algo grande estava para acontecer, relembrando o sonho da noite passada, Amy se perguntou se sobreviveria aquilo e só então se deu conta de que estava de fato não apenas acordada, mas consciente de seus pensamentos e sentimentos.
Eu posso sentir, eu posso sentir tudo.
Ainda naquela tarde, Amy foi levada pelos enfermeiros para tomar sol no jardim, era a primeira vez que Amy via o céu desde que conseguia se lembrar. Sentou-se em um dos bancos de madeira e olhou para o alto, o céu estava azul sem nenhuma nuvem e o sol era quente sobre sua pele, não era de fato ruim, mas Amy não gostou da sensação.
As pessoas não se aproximavam de Amy, embora fossem loucos ainda possuíam um instinto que os repelia de qualquer aproximação com a garota loira e estranha. Os enfermeiros tampouco pareciam se sentir de forma diferente.
Amy observou enquanto alguns pacientes brincavam com alguns brinquedos de madeira, pareciam crianças, completamente incapazes de pensar ou viver longe daquele lugar. Porém com Amy era diferente, ela sabia que aquele nunca fora seu lugar e mesmo que antes nunca tenha se importado, naquele momento ela odiou seus pais por tê-la colocado ali, aquele não era o seu lugar e precisava sair dali o quanto antes.
Uma voz masculina chamou sua atenção e seus olhos buscaram a pessoa que emitiu tal som. Era um homem velho, vestia preto, tinha um chapéu preto e algo pendurado em seu pescoço que com o reflexo do sol fez com que os olhos de Amy doessem. Por algum motivo que Amy não conseguia explicar ela não gostava daquele homem, ele parecia terrivelmente ameaçador com aquele livro de capa preta nas mãos. Ela queria que ele fosse embora, queria que ele desaparecesse, que morresse, queria naquele instante.
Um forte vento invadiu o jardim e as arvores balançaram como seu fossem finas como papel, o sol foi engolido por um turbilhão de nuvens escuras e o céu ficou cinza. O vento gelado bateu sobre o rosto de Amy e ela se sentiu satisfeita ao ver o chapéu do velho voar para longe, junto com seu maldito livro ameaçador. Ele abaixou para pegar o livro do chão e então seus olhos encontraram os de Amy e ele parou a encarando. Amy manteve seu olhar preso aos dele, e então sentiu como que um rosnado, mas este não vinha de seus lábios, vinha de sua mente. Sua pele pinicou e sabia que não era a única que não gostava do homem.
Amy reparou quando o velho perguntou algo a uma das enfermeiras, não sabia dizer como, mas tinha certeza que falavam sobre ela e odiou aquilo de uma forma como jamais odiou antes. Amy fora privada de sentimentos por tantos anos, e agora que toda a enxurrada de sensações a envolviam ela não sabia como lidar com elas ou mesmo como disfarçá-las.
O rosnado dentro de sua cabeça se tornou ensurdecedor quando percebeu o homem andando em sua direção. Os enfermeiros estavam agora levando os pacientes de volta para dentro protegendo-os da tempestade que parecia se formar. Amy desejou que não a deixassem sozinha com o homem.
- Olá, posso me sentar aqui ao seu lado? – a voz dele era rouca e o rosnado na cabeça de Amy ordenava que ela o mandasse embora, porém Amy desobedeceu.
Ela não respondeu, apenas acenou um sim com a cabeça. Sua cabeça permanecia baixa, seus olhos examinavam o homem com medo e raiva.
- Você deve ser Amy, eu ouvi falar de você.
Amy não respondeu.
- Sabe Amy, os médicos dizem que você esta bem agora, que logo poderá sair desse lugar.
Amy levantou a cabeça confusa, como ele poderia saber daquilo?
- Imagino que com tudo o que aconteceu no seu passado, seja difícil recomeçar, mas quero que saiba que você sempre terá um lugar na casa do senhor.
- Acha que Deus pode me perdoar padre? – perguntou Amy em eco aos sussurros de sua mente.
- Mas é claro que sim, querida. Não existe um pecado tão grande que Deus não possa perdoar desde que o pecador reconheça seu erro e se arrependa do fundo do coração.
Amy rio, um riso alto e escarnecedor. O padre parou a fitando assustado.
- Deus? Onde estava Deus quando matei minha irmã? Ele não a protegeu – gritou Amy – Onde estava o seu Deus quando meus pais me trancafiaram aqui dentro e jamais voltaram? Onde está o seu Deus agora?
- Entendo que esteja confusa, minha filha, mas podemos conversar a respeito. Deus jamais a abandonou..
- Eu não preciso de Deus – Amy riu novamente – quando estico meus braços eu não encontro Deus, não encontro amor, só encontro vazio. É escuro aqui dentro padre.
- Você se sente sozinha, eu entendo – o padre tocou o ombro esquerdo de Amy
- Sozinha? Nunca. – Os olhos de Amy brilharam e o padre sentiu sua mão queimar, retirando-a imediatamente do ombro de Amy
– Eu nunca estive sozinha, padre.
Ao olhar para o braço de Amy, o padre viu um sinal de um cruz invertida que parecia querer sair através de sua pele e então a cruz se deformou se transformando num outro símbolo, algo que jamais vira antes, era como um círculo aberto com cada uma de suas pontas afiadas apontando para um lado, a ponta de cima apontava para a esquerda e a debaixo para a direita, cortando o símbolo havia uma lamina afiada apontando para cima e para baixo.
- Diga-me seu nome, demônio – disse o padre segurando com força um crucifixo dourado pendurado ao seu pescoço.
- Ninguém fala por mim padre – respondeu Amy – mas ele esta aqui comigo.
- Diga-me o nome!
- Perdoe-me padre, pois eu pequei – a voz de Amy se tornou um gutural macabro – meu nome é legião, pois somos muitos.
***
Naquela noite, Amy se sentiu assustada e confusa com tudo o que tinha acontecido no jardim. Agora que estava longe do padre, não conseguia compreender porque sentiu tanto ódio daquele homem. À mera recordação de seu rosto, Amy ouviu um longo rosnado dentro da cabeça, e então compreendeu. Você o odeia, não eu.
O rosnado cessou.
Amy pensou se tudo aquilo realmente fazia sentido. Por fim se perguntou se alguma outra pessoa no mundo já havia passado por situação parecida. Quantas pessoas estão por aí sem serem elas mesmas? Será que sou só eu?
- Você é especial Amy, não existe outra como você.
Amy ficou gelada ao ouvir aquela voz que sempre sussurrava em seus ouvidos, agora falando como se estivesse ali do seu lado.
- Não tenha medo, não vou machucar você.
Quem é você?
- Ora, querida, já não passamos por isso antes? Você sabe o que sou.
Amy ouviu um riso ecoando dentro de sua mente, e percebeu que não vinha da mesma coisa que falava com ela.
Eu sei o que vocês são, quero saber quem vocês são.
As velas do quarto de Amy se ascenderam e apagaram sozinhas, Amy assustada correu os olhos pelo quarto vazio, mas quando as velas voltaram a ascenderem ela já não estava mais sozinha.
Amy conteve um grito quando viu uma sombra parada ao lado da porta. Não havia como descrever o que estava vendo, mas lembrou-se de alguns desenhos que havia desenhado quando criança. Definitivamente a sombra que a observava enquanto dormia era a mesma que agora estava dentro do quarto.
Amy piscou e quando abriu os olhos a sombra estava bem na sua frente, era negro como a noite, possuía chifres curvados para trás e os olhos eram vermelhos como sangue. Amy gritou do fundo seus pulmões, mas o grito não saiu, estava completamente muda.
Por favor não me machuque.
- E porque machucaria o nosso tesouro mais precioso?
Estou com medo, eu.. eu não entendo.
- Amy, querida, você é a nossa salvadora.
Oque? Amy olhou para a sombra agora curiosa.
- Porque acha que estivemos com você todo esse tempo? Para que quando se tornasse adulta pudesse cumprir o papel que foi lhe dado.
Amy prendeu a respiração. Que papel?
- Ainda é cedo para falarmos sobre isso. Agora tudo o que precisa saber é que está na hora de sair desse lugar. Você não pertence a esse lugar Amy.
Eu não tenho como sair daqui, e mesmo que saísse para onde iria?
O rosnado comum em sua cabeça deu lugar a um quase ronronar, sua pele se arrepiou quando sentiu uma carícia, mas nada a tocava.
- Cuidaremos de você Amy, como sempre fizemos.
Então Amy assentiu.
A sombra se distanciou lentamente.
- Espere – chamou Amy, sua voz era apenas um sussurro. – Não me disse seu nome.
- Temos muitos nomes.
Amy ficou calada ao ver a sombra desaparecer e a luz das velas se apagar.
Não quero ficar sozinha.
- Você nunca está sozinha – ronronou a conhecida voz dentro de sua cabeça.
Lentamente Amy foi tomada por uma sensação de cansaço incomum e logo então foi arrastada por um sono profundo, porém turbulento.
Amy caminhava por entre ruas devastadas, o fogo consumia cada centímetro de St Augustine. Amy percebeu que a casa que observava queimar era sua antiga casa, a casa de seus pais. As janelas estavam fechadas e o fogo consumia tudo lá dentro. Um homem gritava e esmurrava a janela, era seu pai, queimando ele sofria, Amy podia sentir seu sofrimento e seus olhos se encontraram, mas Amy não partiu para salvá-lo ao invés disso seus lábios se contorceram em um sorriso maldoso e cruel. Sentia-se bem com o sofrimento dele, e mais ainda ao ouvir os gritos de sua mãe e seus irmãos.
Amy continuou caminhando e por todos os lados que olhava havia fogo e sofrimento. Foi então que percebeu que suas mãos estavam em chamas, porém não queimavam. Sentia um poder emanar de dentro de seu ser, era algo glorioso e pela primeira vez sabia que não havia ninguém mais dentro dela, ninguém lhe dava poder, o poder vinha apenas de si mesma.
Ao continuar caminhando Amy chegou até o velho cemitério da cidade, onde incontáveis sombras a aguardavam. Sabia que conhecia todos elas, estavam dentro de Amy o tempo todo, uma era ligeiramente familiar com seus imensos chifres retorcidos e olhos avermelhados.
A sombra estendeu a mão para Amy e ela caminhou em sua direção. Do lado de fora do cemitério, os gritos de dor e sofrimento eram para Amy como sinos ao vento e seu deleite era a morte.
- Está ficando mais escuro – disse a sombra – não faça barulho.
Morte em sua forma mais hedionda.
Amy acordou assustada e suada, ainda não havia amanhecido. Suspirou e fechou os olhos tentando voltar a dormir, o sonho não lhe saia da mente.
Você guarda as respostas nas profundezas de sua mente. ***
Alguns dias se passaram no Hospital St Mary. Amy reagiu bem a todos os testes realizados pelos médicos.
- Ao que tudo indica, minha cara, poderá sair daqui muito antes do que imaginávamos – disse o Dr Webber.
Amy o encarou surpresa – logo, quando?
- Bom primeiro teremos que agilizar uma certa papelada, e depois entraremos em contato com a sua família. – respondeu o velho sorridente.
- Eu não vou voltar para a minha família.
- Mas, aqui em sua ficha, consta que você não tem mais ninguém que possa vir buscá-la.
- Eu tenho certeza que posso cuidar de mim mesma, me sinto ótima.
O médico não pareceu convencido, mas escolheu retomar aquela conversa em outro momento.
Amy continuava recendo visitas a noite, e depois do sonho tudo pareceu se tornar maior, cheio de segredos e deveres que Amy deveria realizar. Era assustador, todas as coisas que a sombra lhe mandava fazer eram assustadoras, mas por outro lado, as promessas de um futuro glorioso deixavam Amy completamente encantada.
- Você precisa prometer que fará exatamente tudo o que dissermos – a voz em sua cabeça agora já não mais sussurrava, falava alto em tom autoritário. As vezes era difícil decifrar qual era a voz que falava, já que não era apenas uma.
Eu tenho escolha?
A sombra limitou-se a um rosnado de desagrado.
Eu não sei se sou forte o suficiente para fazer isso, eu sou apenas uma humana.
- Tem certeza disso?
Amy segurou a respiração.
- Então me diga o que eu devo fazer, quero começar agora. – A voz de Amy era decisiva.
Dois dias depois da conversa com o médico, Amy foi surpreendida pela visita de alguém que jamais imaginou que voltaria a ver.
- Você precisa entender que o processo de cura de Amy é uma incógnita até mesmo para nós médicos. Não será bom para ela reviver momentos da infância que considere dolorosos, por tanto não deve ser comentado o fato do homicídio de sua filha.
Amy estava sentada do lado de fora do consultório do médico aguardando. Tinha certeza absoluta que as vozes eram baixas o suficientes para não serem ouvidas através da porta, mas Amy ouvia a voz do médico claramente.
- Como ela esta doutor?
- Extraordinariamente bem, Sra Cargill - respondeu o médico confiante - se estiver disposta a dar uma chance para ela, tenho certeza que poderão recomeçar agora, Amy está saudável.
Amy revirou os olhos ao comentário do médico.
Eu nunca estive doente.
A porta se abriu e o médico pediu que Amy entrasse.
A mãe de Amy havia envelhecido muito, tinha cabelos brancos misturados aos loiros desarrumados em um coque, vestia um vestido maltrapilha e usava óculos tão grandes que pareciam cobrir metade do seu rosto. Amy não sentiu um pingo de emoção ao rever a mulher, tampouco sentiu algo ao ser abraçada por ela.
- Amy, minha filha, eu senti tanto a sua falta. – a mulher tinha lágrimas nos olhos, mas Amy não pode deixar de reparar na ironia do comentário.
- Seus irmãos queriam vê-la mas eu pensei que talvez você não gostasse de receber tantas visitas no mesmo dia. – a mulher sorrio um pouco tímida.
Sinceramente Amy não gostava se quer daquela única visita, quanto mais dos irmãos.
- Vou deixá-las a sós – disse o médico se retirando – se precisarem de mim estarei ao lado.
Quando o médico saiu fechando a porta, Amy suspirou pesadamente e se sentou na cadeira. Embora naquele momento gostaria de ouvir alguns rosnados em sua cabeça, para não se sentir tão desprotegida, tudo o que ouvia era o silencio seguido pela respiração pesada de sua mãe que fungava segurando as lagrimas.
- Como você está Amy? – a mãe se aproximou e sentou-se ao seu lado, pegando suas mãos e segurando junto as suas.
Amy balançou os ombros.
- Sei que esta brava porque eu não vim visitá-la antes, mas você precisa compreender, depois de tudo o que aconteceu, eu não tive forças para vir.
- Não importa – disse Amy evasiva – eu estou bem.
- Seus irmãos sentem falta de você, eles não sabem o que..
- Não me importo com eles – gritou Amy puxando as mãos e se levantando – eu não me importo com eles, nem com papai, nem com você, nem com Bonnie.
- Amy porque diz isso?
- Porque é verdade – Amy jogou os braços para cima e laçou um olhar gélido a mulher – estou livre finalmente, logo poderei sair daqui e não quero mais pensar no passado.
- Tudo bem, eu entendo, me desculpe. – Sarah sorriu – quando poderá voltar para casa?
- Os médicos disseram que logo poderei ir embora, mas não vou para casa.
- O que? Porque? Para onde irá então?
Amy.. Amy.. Não.. Amy...
Amy parou escutando o sussurro que chamava seu nome.
O que foi?
Amy.. você deve ir para casa.
Não!
Faça o que estou mandando! A voz gritou em sua cabeça e ela pulou assustada. Sua mãe olhou para ela com o mesmo olhar de quando era criança. Medo.
- Amy você está bem?
- Eu estou, só me assustei com.. não é nada.
- Querida quero que venha para casa, prometo que ninguém irá julgá-la ou lembrá-la do que aconteceu. É o seu lar, por favor.
Amy suspirou derrotada.
Porque preciso ir para casa?Disse que cuidaria de mim quando saísse daqui.
Amy.. cuidaremos de você.. sempre.
Amy assentiu para si mesma.
- Você virá? – perguntou a mãe esperançosa.
-Sim – respondeu Amy contra sua vontade.
***
1 semana depois, Amy estava finalmente livre daquele hospital. Esperava ansiosa para abandonar aquelas paredes brancas e velhas e poder olhar as ruas e as casas das quais já não se lembrava mais. Sarah buscou Amy e caminharam até a casa. Durante o caminho, nenhuma das duas falou, Amy estava incomodada com a idéia de rever os irmãos e principalmente os pais. Se lembrava vagamente de que ele a teria matado se os vizinhos não tivessem o impedido.
Curioso.
Amy sentiu ranger os dentes e dentro dela um rosnado longo e demorado.
Quando finalmente chegou em casa, foi envolvida nos braços dos irmãos, Laurie chorava e seu pai estava escorado a porta, mas não tinha nenhum afeto em seus olhos.
- Minha filha, seja bem vinda de volta – ele a puxou para seus braços e Amy sentiu um desconforto enorme com a situação, mas manteve-se quieta e forçou um sorriso.
Muitas foram as perguntas sobre como foram os dias no hospital, do que Amy se lembrava antes de acordar a algumas semanas atrás, mas Amy não queria falar sobre o assunto, então respondia que não se lembrava de nada e que desde que acordou levou uma vida completamente normal no hospital.
- Acho que ela precisa descansar um pouco – disse a mãe pegando em sua mão e a arrastando escada a cima.
Os irmãos as seguiram.
- Esse era seu quarto, você se lembra Amy? – perguntou a mãe emocionada.
Amy negou com a cabeça, mas se lembrava perfeitamente do quarto. Virou a cabeça para olhar as paredes, se lembrava também de passar horas sentada ao chão conversando com os sussurros que vinham da parede. Não eram de fato lembranças ruins, eram apenas confusas e um pouco perturbadoras. Conversar com sussurros e sombras se tornou algo completamente comum desde que Amy acordou no hospital.
- Você dormirá sozinha neste quarto querida – informou a mãe um pouco receosa – acho que apreciará ter o seu próprio quarto.
Amy percebeu que os irmãos se entre olharam e isso a fez perceber que de fato estavam com medo de dormir com ela.
- Tudo bem.
Amy passou o resto da tarde sozinha no quarto, as poucas roupas que foram colocadas em seu guarda-roupas eram novas e tinham um cheiro de perfume desagradável, mas Amy ficou grata por poder retirar aquele maldito macacão branco do hospital. Vestiu um vestido simples e florido e se olhou no espelho. O reflexo a assustou, fazia muito tempo que Amy não se olhava no espelho, e aquela era de fato a primeira vez que olhava para si mesma desde que acordou.
Seu corpo agora era obviamente maior do que quanto deixou aquela casa. Com seus 17 anos, Amy possuía um corpo comum à garotas da idade. Percebeu que era muito baixa, mas aquilo não importou muito. Seu rosto era redondo assim como sempre foi quando criança, possuía covinhas, o que lembrava vagamente da mãe dizendo quando criança que era algo muito bonito. Os olhos eram azuis, mas agora enquanto se aproximava do espelho para observar melhor, percebeu que não eram tão comuns como os olhos das outras pessoas. Suas pupilas negras se dilatavam de um tamanho que não parecia ser normal e enquanto olhava se dilataram ainda mais quase encobrindo toda a íris azul.
Amy se assustou e piscos algumas vezes e então quando voltou a olhar, seus olhos eram tão normais quanto os de todo mundo.
Amy passou a mão sobre os cabelos loiros, eram lisos, mas mantinham algumas curvas, Amy desejou que fossem mais compridos.
A noite caiu e Amy foi obrigada a jantar com seus pais na cozinha. Não gostava da sensação de todos os olhos estarem voltados a ela, sabia que tinham medo dela, e aquilo a deixava irritada.
- Estou satisfeita, acho que vou me deitar – disse Amy evasiva
- Não vai comer sua sobremesa? – perguntou o pai.
Amy suspirou pesadamente e então levantou-se deixando a cozinha sem responder.
Voltou para o quarto, mas ao invés de deitar na cama, deitou-se no tapete no chão próximo a parede. Estava quase dormindo quando ouviu chamarem seu nome.
Pegue-me enquanto caio, diga que está aqui e que tudo está acabado agora.
Amy então adormeceu, mas acordou com aquele cheiro estranho já conhecido. Ao abrir os olhos, pode ver a sombra que estava deitada ao seu lado no chão.
- Está na hora.
Amy não entendeu o que ele quis dizer.
- Escute.
Amy apurou os ouvidos e pode ouvir a conversa que vinha do quarto de seus pais.
- Aceite Sarah, ela nunca será uma de nós.
- John não diga isso, ela é nossa filha, você prometeu que daria uma chance a ela.
- E não foi o que eu fiz? Ela não é uma garota normal, Sarah, como posso dormir sabendo que ela esta sob o mesmo teto que meus filhos depois do que ela fez?
Amy sentiu o sangue ferver.
- Eles jamais irão aceitá-la por quem você é – sussurrou a sombra.
- Eu não queria estar aqui, eu disse que não queria. – Amy sussurrou de volta com ódio.
- Você sabe o que tem que fazer.
Amy lembrou do sonho que teve semanas atrás.
- Eu não sou forte o suficiente.
Outras sombras rosnaram na mente de Amy.
- Você será, se fizer isso, você será.
Amy não respondeu.
- Você os odeia Amy, eles não significam nada para você.
- Eles não amam você Amy – sussurrou outra voz em sua cabeça.
- Mas são a única família que tenho. – Amy tinha lagrimas nos olhos.
- Quem sempre esteve com você? Quem cuidou de você quando eles a abandonaram? Somos a sua única família Amy.
Amy suspirou derrotada, sentia no fundo do coração que era verdade. Não possuía nenhum sentimento por aquelas pessoas, na verdade tudo o que sentia era ódio e esse ódio a estava machucando.
- Você sabe que pode parar a dor, se você o fizer tudo vai embora. – A sombra olhou profundamente nos olhos de Amy com seus olhos vermelhos e Amy sentiu suas mãos se fecharem em punho.
- Mate-os
- Mate-os agora – sussurravam as sombras.
Amy se levantou do chão – Mostrem-me como.
A sombra se tornou uma densa nuvem de fumaça preta e Amy sentiu queimar quando ela passou por sua garganta. As mãos de Amy se moveram, mas não era ela quem as movia.
- Não tenha medo – disse a sombra em sua mente enquanto acariciava seu rosto com suas próprias mãos. – Eu vou te mostrar como.
Eu não tenho medo.
Amy caminhou pela casa silenciosa, não era como se não pudesse se mexer ou se estivesse privada de seu próprio corpo, desta vez era diferente, ela podia sentir a sombra a guiando, mas quem dava os passou era ela mesma. Desceu pela escada, caminhou até a sala de costura da mãe e pegou a tesoura em cima da mesa.
Primeiro foi até o quarto do irmão, Robert dormia profundamente, com uma das mãos tapou sua boca e mesmo que ele lutasse, não conseguia se desvencilhar da força sobrenatural que o segurava.
Amy levantou a mão que segurava a tesoura no ar, e então a fincou profundamente em um dos olhos do irmão que se debateu sem emitir um som. O sangue que corria era quente enquanto o irmão dava os últimos suspiros e Amy o apunhalava outra vez e outra e outra.
Os próximos foram Carrie e Laurie.
Amy entrou no quarto e assim que passou pela porta ela se fechou com força, porém sem um ruído. Amy caminhou até Carrie e colocou um travesseiro em seu rosto para que não gritasse, apertou forte a sufocando e sentiu-se como jamais se sentiu antes ao ver os pés que lutavam desistirem e cederem. Outra vez, partiu para Laurie que ao vê-la com a tesoura na mão abriu a boca para gritar, mas não havia som algum. Amy pegou a menina pelos cabelos a puxando para fora da cama e cravou a tesoura em seu pescoço deixando o sangue fluir violentamente.
Amy levantou olhando para o quarto.
Morte em sua forma mais hedionda.
- Já estamos começando a nos divertir? – rio a sombra dentro de sua cabeça e Amy sorrio abertamente.
Amy abriu a porta e foi até o quarto dos pais, eles dormiam profundamente.
- Você sabe como fazer – sussurrou a sombra e as duas mãos de Amy se ergueram no alto em chamas.
- Queime-os – gritou a sombra
Os pais de Amy acordaram com o estalar das chamas. Sarah gritou ao ver as mãos da filha pegando fogo.
- Amy o que você fez? – gritou o pai para ela ao ver o sangue em seu vestido.
- Estão todos mortos – disse Amy rindo - cada um deles eu matei.
Sarah gritou se entregando ao choro.
- Eu vou te matar – gritou o pai indo na direção de Amy e então com um levantar do queixo, Amy o jogou contra a parede de onde ele se erguia se arrastando, sua pele rasgando como se uma garra invisível o atingisse.
- Bruxa – gritou Sarah correndo até o marido – solte-o, não o machuque.
Amy rio alto e então com as mãos lançou as chamas pelo quarto. Sarah tentou correr, mas a porta se fechou. John foi arremessado ao chão e agora corria até a janela batendo pedindo por ajuda. Os gritos de dor e agonia eram como sinos ao vento para Amy e dentro de sua mente as sombras dançavam. Amy podia ver enquanto a carne queimava e descolava dos ossos, enquanto a dor era excruciante e eles rolavam no chão aos berros, nada que viveu antes era tão maravilhoso como sentir a vida e a morte deles em suas mãos
Anjos caídos aos meus pés, sussurram vozes em meus ouvidos. Morte diante de meus olhos, repousando ao meu lado, eu temo. Ela acena para mim, devo me entregar? Sobre o meu fim, devo começar? Esquecendo todas as coisas pelas quais caí, eu me elevo para conhecer meu fim.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Capítulo 2: Assombrada
Amy foi internada num hospital psiquiátrico. Seus pais não poderiam fazer outra coisa se não abrir mão de Amy, era o melhor para ela. Ou pelo menos foi o que disseram a si mesmos. No entanto nos anos que se seguiram, Amy nunca recebeu uma visita dos pais, eles a renegaram e preferiram pensar que ela jamais existiu um dia, ou que tudo foi apenas um terrível pesadelo.
Quando chegou ao hospital, Amy foi submetida a vários exames médicos, mas os médicos jamais compreenderam exatamente o que havia de errado com a garota. Em seu prontuário dizia que a menina de quase 7 anos sofria de transtornos psicológicos com traços de esquizofrenia, epilepsia e forte tendência à violência. Amy foi trancafiada na área de doentes mentais perigosos e sofreu uma série de tratamentos de eletro choque. Ela não falava, não emitia se quer um som, recusava comida e tinha suas medicações eram injetadas à veia.
Dessa forma Amy passou muitos anos até a adolescência. Amy não tinha controle de seus pensamentos, geralmente não sabia a diferença do que era real ou ilusão de sua mente, mas mesmo sendo tão castigada por todos os tratamentos ineficazes, Amy tinha consciência de que não estava louca, de que nunca esteve. Amy sabia no entanto que também nunca estivera de fato sozinha, e a companhia daqueles pensamentos e imagens a sequestrou da realidade a ajudando a passar por todos os anos no hospital.
Amy não possuía, de fato, consciência de que não deveria estar ali, tampouco possuía desejo de partir. Amy não sentia nada além daquilo que as vozes a faziam sentir.
10 anos depois
Palavras estranhas são sussurradas lentamente para mim. Ainda não consigo encontrar o que me mantém aqui quando por todo esse tempo eu tenho estado tão vazia por dentro.
– Eu sei que você ainda está aí.
Era apenas um dia como qualquer outro no Hospital St Mary na cidade de St Augustine, Estados Unidos, 1697. No entanto algo estava diferente. Amy estava acordada como jamais esteve em toda a sua vida. Seus pensamentos agora pertenciam a ela.
Eu posso sentir você me puxando para baixo.
Uma batida na porta assustou Amy, seus olhos azuis procuraram e notaram cada canto da sala branca e acolchoada. Não era como se ela não soubesse onde estava, tinha completa noção de estar internada no hospital por ter assassinado sua irmã Bonnie, mas Amy de fato nunca foi capaz de estar presente naquele lugar realmente. Sempre esteve perdida em sonhos e lugares dentro de sua mente, mas agora não havia nenhum outro lugar em que estivesse a não ser naquele quarto e naquela cama.
A porta se abriu
– Bom dia, Senhorita Lee, está na hora de sua medicação.
Amy fixou os olhos na mulher velha vestida de branco que falava com ela. Tentou se levantar, mas os braços e pernas estavam presos a cama com algemas de couro. Percebeu com o canto do olho que a enfermeira se assustou ao vê-la se debatendo, então parou.
A mulher se aproximou lentamente com uma bandeja e a colocou numa mesa ao lado da cama, em seguida pegou uma seringa e drenou o liquido de um pequeno vidro e veio em sua direção.
– Apenas uma picadinha, como de costume.
- Não – disse Amy assustada e a enfermeira gritou derrubando a seringa que com um barulho ardido de vidro quebrando se espatifou no chão.
- Fique longe de mim! – gritou Amy.
A enfermeira saiu correndo para fora do quarto e Amy permaneceu quieta olhando o teto. Podia ouvir os murmúrios do lado de fora do quarto, os passos apressados e então um médico velho entrou pela porta curioso. O médico pegou uma vela e foi em direção de Amy, quando ela se retesou ele sorrio.
- Não vou machucá-la, apenas quero examiná-la.
Amy assentiu.
O médico aproximou a vela de seus olhos examinando suas pupilas e então auscultou seu coração.
- Pode acompanhar meu dedo Srta Lee? – ele arrastou o dedo indicador no ar para um lado e outro e Amy o acompanhou com os olhos.
– Pode me dizer a quanto tempo esta acordada?
Amy pensou por um segundo – 15 minutos. Pode me soltar?
O médico olhou em dúvida para a enfermeira e então sorrio.
– Solte as pernas dela.
A enfermeira fez o que médico disse, mas seus olhos estavam esbugalhados.
- As mãos? – perguntou Amy
- Vamos com calma – disse o médico – sabe qual é o seu nome?
- Amy Lyn Lee.
- Sabe que dia é hoje?
Amy acenou negativamente com a cabeça.
- Hoje é dia 13 de dezembro, é seu aniversário Amy.
Amy pensou por um segundo – a quanto tempo estou aqui?
- 10 anos – disse o médico pasmo com o fato de Amy estar conversando. 3 horas antes quando ele passou para visitá-la ela estava completamente em estado de transe como ficou por exatos 10 anos desde que foi levada ao hospital. Os olhos abertos, porém perdidos, não falava, não comia. Agora Amy parecia completamente saudável. Não havia um fato lógico que explicasse aquela evolução em tão pouco tempo.
- Sabe porque está aqui Amy? – perguntou o médico cauteloso.
- Porque matei minha irmã Bonnie.
- E sabe me dizer porque fez isso?
Amy não respondeu. – Me sinto bem, quero que me solte.
O médico concordou. – Quero passá-la por uma série de exames, se você se comportar pedirei aos enfermeiros que a solte e a levem para a área de tratamento brando. Concorda?
Amy assentiu.
Depois de passar por uma série de exames o médico decidiu que Amy não era mais um perigo para os outros pacientes e a levou para um quarto da ala de tratamento de pacientes com distúrbios mais leves. Era um novo começo para Amy, agora que ela tinha consciência do que ocorria ao seu redor. Ao final daquela tarde Amy jantou com os demais pacientes, mas percebeu que eles tinham muito medo dela. Isso não a incomodou, na verdade Amy não compreendia porque, mas não sentia vontade de estar perto das pessoas, a solidão a fazia se sentir a salvo e livre.
Amy no entanto sabia que não estava completamente livre, ela podia sentir aquela coisa se contorcendo por debaixo de sua pele, aquele demônio que sempre esteve dentro dela, o mesmo que a fez assassinar sua própria irmã, mas Amy estaria mentindo se dissesse que não gostava da sensação. Era como uma fonte de energia inesgotável ali dentro dela, mesmo antes de recobrar a consciência, Amy sentia aquela sensação de poder e não era ruim. Na verdade Amy nem sequer conseguia odiá-lo por ter matado sua irmã, era quase como se fosse incapaz de sentir qualquer sentimento que não fosse um profundo desejo de liberdade.
Preciso sair daqui.
Amy foi para o quarto e esperou que as luzes apagassem, mas ela não dormia. Desde que foi internada naquele hospital, Amy jamais dormiu. Não era como se seu corpo precisasse descansar, ela possuía sua própria fonte de energia e naquela noite, Amy se sentia mais acordada do que nunca.
As luzes se apagaram, as vozes foram diminuindo. Silencio e escuridão tomaram conta do quarto e na calada da noite uma voz chamou pelo seu nome.
- Amy... Amy... Amy...
Eu sei que você está ai me observando, me desejando, eu posso sentir você me puxando para baixo. Estou sentindo você, amando você, mas não vou deixar você me puxar para baixo.
- Venha para nós, Amy...
De repente Amy sentiu um forte cheiro que ela não conseguia identificar, o quarto estava quente e seu ombro esquerdo começou a queimar, ela correu até a grade da janela e com o claro do luar pode ver uma mão que arranha por debaixo da pele. A dor era excruciante, mas Amy não emitiu um som. Lentamente a mão desapareceu e o fogo cessou e tudo ficou quieto dentro de sua cabeça, mas no segundo seguinte Amy estava contra a parede, sem poder se mexer, seu corpo erguendo-se do chão e ela podia sentir um toque em brasa que percorria seu corpo até sua área genital.
Amy lutou em silencio, mas não havia ninguém a não ser o ar. Aos poucos sentiu-se penetrar por uma força invisível, as vozes voltaram agora ainda mais altas, sussurravam seu nome com desejo.
Amy sentia, sentia o medo que pensou jamais poder sentir novamente, a dor e o sangue que escorria por entre suas pernas, e uma sensação de prazer que a fazia gemer por entre os dentes trincados e se contorcer enquanto era arrastada pelas paredes como se pesasse menos do que uma pena. Amy nunca sentiu nada parecido com aquilo antes.
Amy acordou deitada em sua cama com a luz do sol iluminando o quarto. Uma enfermeira entrou com uma bandeja de comida e ela fingiu estar dormindo. De fato Amy dormira, pela primeira vez em 10 anos, Amy dormiu.
Quando a enfermeira saiu fechando a porta, Amy levantou com um pulo puxando o lençol para se certificar do sangue que sentiu escorrer por suas pernas durante a noite, mas não havia nada lá. Teria tudo aquilo sido um sonho?
Quando chegou ao hospital, Amy foi submetida a vários exames médicos, mas os médicos jamais compreenderam exatamente o que havia de errado com a garota. Em seu prontuário dizia que a menina de quase 7 anos sofria de transtornos psicológicos com traços de esquizofrenia, epilepsia e forte tendência à violência. Amy foi trancafiada na área de doentes mentais perigosos e sofreu uma série de tratamentos de eletro choque. Ela não falava, não emitia se quer um som, recusava comida e tinha suas medicações eram injetadas à veia.
Dessa forma Amy passou muitos anos até a adolescência. Amy não tinha controle de seus pensamentos, geralmente não sabia a diferença do que era real ou ilusão de sua mente, mas mesmo sendo tão castigada por todos os tratamentos ineficazes, Amy tinha consciência de que não estava louca, de que nunca esteve. Amy sabia no entanto que também nunca estivera de fato sozinha, e a companhia daqueles pensamentos e imagens a sequestrou da realidade a ajudando a passar por todos os anos no hospital.
Amy não possuía, de fato, consciência de que não deveria estar ali, tampouco possuía desejo de partir. Amy não sentia nada além daquilo que as vozes a faziam sentir.
10 anos depois
Palavras estranhas são sussurradas lentamente para mim. Ainda não consigo encontrar o que me mantém aqui quando por todo esse tempo eu tenho estado tão vazia por dentro.
– Eu sei que você ainda está aí.
Era apenas um dia como qualquer outro no Hospital St Mary na cidade de St Augustine, Estados Unidos, 1697. No entanto algo estava diferente. Amy estava acordada como jamais esteve em toda a sua vida. Seus pensamentos agora pertenciam a ela.
Eu posso sentir você me puxando para baixo.
Uma batida na porta assustou Amy, seus olhos azuis procuraram e notaram cada canto da sala branca e acolchoada. Não era como se ela não soubesse onde estava, tinha completa noção de estar internada no hospital por ter assassinado sua irmã Bonnie, mas Amy de fato nunca foi capaz de estar presente naquele lugar realmente. Sempre esteve perdida em sonhos e lugares dentro de sua mente, mas agora não havia nenhum outro lugar em que estivesse a não ser naquele quarto e naquela cama.
A porta se abriu
– Bom dia, Senhorita Lee, está na hora de sua medicação.
Amy fixou os olhos na mulher velha vestida de branco que falava com ela. Tentou se levantar, mas os braços e pernas estavam presos a cama com algemas de couro. Percebeu com o canto do olho que a enfermeira se assustou ao vê-la se debatendo, então parou.
A mulher se aproximou lentamente com uma bandeja e a colocou numa mesa ao lado da cama, em seguida pegou uma seringa e drenou o liquido de um pequeno vidro e veio em sua direção.
– Apenas uma picadinha, como de costume.
- Não – disse Amy assustada e a enfermeira gritou derrubando a seringa que com um barulho ardido de vidro quebrando se espatifou no chão.
- Fique longe de mim! – gritou Amy.
A enfermeira saiu correndo para fora do quarto e Amy permaneceu quieta olhando o teto. Podia ouvir os murmúrios do lado de fora do quarto, os passos apressados e então um médico velho entrou pela porta curioso. O médico pegou uma vela e foi em direção de Amy, quando ela se retesou ele sorrio.
- Não vou machucá-la, apenas quero examiná-la.
Amy assentiu.
O médico aproximou a vela de seus olhos examinando suas pupilas e então auscultou seu coração.
- Pode acompanhar meu dedo Srta Lee? – ele arrastou o dedo indicador no ar para um lado e outro e Amy o acompanhou com os olhos.
– Pode me dizer a quanto tempo esta acordada?
Amy pensou por um segundo – 15 minutos. Pode me soltar?
O médico olhou em dúvida para a enfermeira e então sorrio.
– Solte as pernas dela.
A enfermeira fez o que médico disse, mas seus olhos estavam esbugalhados.
- As mãos? – perguntou Amy
- Vamos com calma – disse o médico – sabe qual é o seu nome?
- Amy Lyn Lee.
- Sabe que dia é hoje?
Amy acenou negativamente com a cabeça.
- Hoje é dia 13 de dezembro, é seu aniversário Amy.
Amy pensou por um segundo – a quanto tempo estou aqui?
- 10 anos – disse o médico pasmo com o fato de Amy estar conversando. 3 horas antes quando ele passou para visitá-la ela estava completamente em estado de transe como ficou por exatos 10 anos desde que foi levada ao hospital. Os olhos abertos, porém perdidos, não falava, não comia. Agora Amy parecia completamente saudável. Não havia um fato lógico que explicasse aquela evolução em tão pouco tempo.
- Sabe porque está aqui Amy? – perguntou o médico cauteloso.
- Porque matei minha irmã Bonnie.
- E sabe me dizer porque fez isso?
Amy não respondeu. – Me sinto bem, quero que me solte.
O médico concordou. – Quero passá-la por uma série de exames, se você se comportar pedirei aos enfermeiros que a solte e a levem para a área de tratamento brando. Concorda?
Amy assentiu.
Depois de passar por uma série de exames o médico decidiu que Amy não era mais um perigo para os outros pacientes e a levou para um quarto da ala de tratamento de pacientes com distúrbios mais leves. Era um novo começo para Amy, agora que ela tinha consciência do que ocorria ao seu redor. Ao final daquela tarde Amy jantou com os demais pacientes, mas percebeu que eles tinham muito medo dela. Isso não a incomodou, na verdade Amy não compreendia porque, mas não sentia vontade de estar perto das pessoas, a solidão a fazia se sentir a salvo e livre.
Amy no entanto sabia que não estava completamente livre, ela podia sentir aquela coisa se contorcendo por debaixo de sua pele, aquele demônio que sempre esteve dentro dela, o mesmo que a fez assassinar sua própria irmã, mas Amy estaria mentindo se dissesse que não gostava da sensação. Era como uma fonte de energia inesgotável ali dentro dela, mesmo antes de recobrar a consciência, Amy sentia aquela sensação de poder e não era ruim. Na verdade Amy nem sequer conseguia odiá-lo por ter matado sua irmã, era quase como se fosse incapaz de sentir qualquer sentimento que não fosse um profundo desejo de liberdade.
Preciso sair daqui.
Amy foi para o quarto e esperou que as luzes apagassem, mas ela não dormia. Desde que foi internada naquele hospital, Amy jamais dormiu. Não era como se seu corpo precisasse descansar, ela possuía sua própria fonte de energia e naquela noite, Amy se sentia mais acordada do que nunca.
As luzes se apagaram, as vozes foram diminuindo. Silencio e escuridão tomaram conta do quarto e na calada da noite uma voz chamou pelo seu nome.
- Amy... Amy... Amy...
Eu sei que você está ai me observando, me desejando, eu posso sentir você me puxando para baixo. Estou sentindo você, amando você, mas não vou deixar você me puxar para baixo.
- Venha para nós, Amy...
De repente Amy sentiu um forte cheiro que ela não conseguia identificar, o quarto estava quente e seu ombro esquerdo começou a queimar, ela correu até a grade da janela e com o claro do luar pode ver uma mão que arranha por debaixo da pele. A dor era excruciante, mas Amy não emitiu um som. Lentamente a mão desapareceu e o fogo cessou e tudo ficou quieto dentro de sua cabeça, mas no segundo seguinte Amy estava contra a parede, sem poder se mexer, seu corpo erguendo-se do chão e ela podia sentir um toque em brasa que percorria seu corpo até sua área genital.
Amy lutou em silencio, mas não havia ninguém a não ser o ar. Aos poucos sentiu-se penetrar por uma força invisível, as vozes voltaram agora ainda mais altas, sussurravam seu nome com desejo.
Amy sentia, sentia o medo que pensou jamais poder sentir novamente, a dor e o sangue que escorria por entre suas pernas, e uma sensação de prazer que a fazia gemer por entre os dentes trincados e se contorcer enquanto era arrastada pelas paredes como se pesasse menos do que uma pena. Amy nunca sentiu nada parecido com aquilo antes.
Amy acordou deitada em sua cama com a luz do sol iluminando o quarto. Uma enfermeira entrou com uma bandeja de comida e ela fingiu estar dormindo. De fato Amy dormira, pela primeira vez em 10 anos, Amy dormiu.
Quando a enfermeira saiu fechando a porta, Amy levantou com um pulo puxando o lençol para se certificar do sangue que sentiu escorrer por suas pernas durante a noite, mas não havia nada lá. Teria tudo aquilo sido um sonho?
Capítulo 1: Origem
Uma linda menina nasceu no dia 13 de Dezembro de 1681, século XVII, na cidade de St Augustine, Estados Unidos. Filha de John Lee e Sarah Cargill, à menina foi dado nome de Amy, Amy Lynn Lee. Não que acreditasse muito naquilo, mas seus pais deram a ela tal nome pelo significado de ser demasiadamente amada. Amy significa em poucas palavras: aquela que é amada. Um tanto irônico devido aos fatos futuros que levariam Amy ao mais obscuro ponto de seu ser.
A menina era um lindo bebê. Possuía pele clara como leite e olhos azuis e profundos como o oceano. Não possuía ainda cabelos, mas quando estes começaram a nascer eram loiros como o ouro.
Amy era uma criança alegre, não demorou muito para que aprendesse a se comunicar, a andar e logo correr e rir com os demais irmãos. Possuía três irmãos Robert, o mais velho, Carrie e Laurie. A vida era simples, mas possuía tudo o que necessitava. Seu pai John era um músico, o que na época não era bem recompensado financeiramente. Sua mãe Sarah era costureira e ganhava a vida fazendo vestidos para a alta sociedade. St. Augustine era uma cidade pequena num país em ascensão. O novo mundo, como era chamado, foi demasiado convidativo para a família que se mudou de algum canto da Itália para recomeçar. Amy nasceu três meses depois de chegarem. A cidade não oferecia exatamente o esperado, mas eram felizes com o que possuíam.
Amy tinha três anos quando sua irmã mais nova nasceu. Deram a ela o nome de Bonnie, era um lindo bebê e muito parecida com Amy. Todos estavam felizes, mas algo estava errado com Amy.
Amy deixou de ser o centro das atenções com a chegada da nova irmã. Isso não a incomodou na verdade, a menina de três anos possuía um novo amigo, um amigo que ela não podia ver, mas que conversava com ela e contava histórias. Muitas vezes Sarah encontrou Amy fora da cama de madrugada, sentada no chão, sussurrando para as paredes. Quando comentava o ocorrido com o marido, este sempre dizia que era comum que Amy possuísse um amigo imaginário, Sarah não estava tão certa disso.
A casa dos Lee ficava ao lado de uma densa mata com árvores altas onde animais viviam e pássaros noturnos cantavam a noite. Certo dia quando Sarah foi acordar a filha pela manhã e não a encontrou na cama, saiu desesperada procurando-a pela casa. Horas mais tarde com a ajuda da polícia a encontram perdida na mata enroscada numa cerca densa de espinhos. Ninguém sabia dizer como Amy conseguira sair de casa pois todas as portas estavam trancadas e as janelas eram altas demais para pular. Por Deus, a garotinha tinha pouco mais de três anos!
Quando encontraram Amy, levou muito tempo para que conseguissem tirá-la dos espinhos. Eram tão densos e afiados que todos ficaram perplexos sem compreender como ela tinha conseguido se meter lá. Quando enfim chegaram até ela, perceberam que ela possuía os olhos abertos, mas não piscavam. Estava em transe, ou em choque, como o médico disse para os pais depois de examiná-la.
- Ela só precisa de um pouco de repouso e tudo ficará bem. – disse o doutor depois de retirar alguns espinhos de seus braços e fazer curativos nos cortes de seus pés, pernas e pulsos. Mas nada ficou bem. Na verdade as coisas começaram a piorar.
Amy tinha ataques durante a noite, onde acordava gritando dizendo que alguém queria machucá-la, mas nunca tinha ninguém no quarto. Durante o dia a menina não brincava mais com os irmãos, ou se quer se aproximava da bebê, ela desenhava. Seus desenhos eram sempre iguais: a família ao fundo, Amy sozinha e uma sombra que a observava. Certa vez Sarah se desesperou ao ver um desenho onde Amy estava dormindo em sua cama e uma sombra alada flutuava sobre ela, como se observasse seu sono. Os pais conversaram com Amy sobre os desenhos, mas Amy sempre dizia que não se lembrava de tê-los desenhado. Atormentados, os pais procuraram um médico que recomendou que a garotinha fizesse sessões permanentes de terapia.
Durante as sessões Amy sempre ficava muito nervosa quando perguntado sobre os desenhos ou o porquê de conversar sozinha com as paredes. O médico administrou para Amy doses diárias de calmantes que a deixavam na maior parte do tempo sonolenta. Isso diminuiu os incidentes e o tempo passou.
3 anos se passaram.
Os pais de Amy ainda se perguntavam porque o destino lhes foi tão cruel, dando-lhes uma filha perturbada. Porque era assim que todos enxergavam Amy. Aos 6 anos a garota não falava com as pessoas, não brincava, não se envolvia com os pais. Na escola, Amy amedrontava as outras crianças, algumas crianças choravam em sua presença. Não demorou muito para que a escola pedisse aos pais que a tirassem dos estudos e aconselhou-os a contratar um professor particular. Dessa forma Amy ficava ainda mais excluída do mundo, sempre sozinha com olhos perdidos, murmurando palavras desconhecidas ao vento.
Certa vez a mãe de Amy a encontrou debaixo da cama, ria como se conversasse com alguém, cantava palavras em uma língua que a mãe jamais ouviu antes. Pelo menos não daquela forma. Como a família Lee vivera na Itália a vida toda e levaram sempre uma vida religiosa, era completamente comum a eles ouvirem rezas e preces em Latim, mas não era um simples Latim que Amy murmurava, era algo arcaico, algo que a garota não tinha como saber. Pelo amor de Deus, ela só tinha 6 anos!
O pai de Amy começou a cogitar seriamente a ideia de interná-la num hospital especializado em pessoas com deficiências mentais, mas a mãe jamais aceitou. Doía a idéia de aceitar que fracassaram em tentar salvar a filha. Descobririam futuramente que interná-la era a melhor opção. Descobririam da pior forma possível.
Uma cadeia de acontecimentos terríveis tomou forma dentro da casa dos Lee. O cachorro da família, Bubby, foi encontrado enforcado na árvore ao lado da janela do quarto de Amy. Obviamente não poderia ser a menina, afinal a arvore era um imenso Carvalho, não haveria como ela alcançar ali. Uma semana depois, Amy acordou gritando dizendo que algo queimava dentro dela, mas quando sua mãe chegou a temperatura a garota congelava.
Gritos e choros se tornaram constante dentro da casa, Amy sempre murmurava, as vezes gritava dizendo que a voz não parava de falar, mas nunca havia ninguém falando. Sarah pediu a John que chamassem um padre para conversar com a filha, passava por sua cabeça, e mesmo que ela tentasse com todas as forças tirar esse pensamento de lá, que Amy pudesse estar sendo perturbada por algum espírito ou entidade maligna. John disse que a idéia era absurda e proibiu a esposa de tocar no assunto novamente.
-Ela está doente – gritou ele – por Deus! Ela precisa de um médico não de um padre! Então, na véspera de completar 7 anos, aconteceu algo que mudou completamente a vida de todos, inclusive de Amy.
Amy acordou de madrugada, mas de alguma forma não podia mover o próprio corpo, uma voz soava em sua cabeça, alguém falava com ela de dentro de seu corpo. Apavorada, ela lutava, mas não conseguia se libertar. Amy viu seu próprio corpo levantar e rastejar pelos corredores da casa, observou enquanto suas mãos puxavam Bonnie para fora da cama. A menina assustada, seguiu Amy, mas aquela não era Amy, não mais. Amy tentou gritar quando suas mãos pegaram uma faca na gaveta da cozinha, tentou conter a si mesma quando tapou a boca da irmã para que não gritasse e chorou sem derramar uma lágrima, gritou sem proferir um som, quando viu o sangue da irmã morta em suas mãos. Uma risada animalesca saiu de seus lábios, e então como que numa nuvem de fumaça negra, foi liberta e pode então gritar por seus pais.
John e Sarah gritaram desesperados quando viram o que a filha havia feito. Num momento de ódio, John partiu para cima da filha, mas foi contido pelos vizinhos que invadiram a casa e se depararam com a cena horrível.
A família Lee estava destruída. Sarah carregaria a culpa da morte da filha Bonnie pelo resto da vida, assim como John a culparia por não tê-lo deixado internar Amy.
A menina era um lindo bebê. Possuía pele clara como leite e olhos azuis e profundos como o oceano. Não possuía ainda cabelos, mas quando estes começaram a nascer eram loiros como o ouro.
Amy era uma criança alegre, não demorou muito para que aprendesse a se comunicar, a andar e logo correr e rir com os demais irmãos. Possuía três irmãos Robert, o mais velho, Carrie e Laurie. A vida era simples, mas possuía tudo o que necessitava. Seu pai John era um músico, o que na época não era bem recompensado financeiramente. Sua mãe Sarah era costureira e ganhava a vida fazendo vestidos para a alta sociedade. St. Augustine era uma cidade pequena num país em ascensão. O novo mundo, como era chamado, foi demasiado convidativo para a família que se mudou de algum canto da Itália para recomeçar. Amy nasceu três meses depois de chegarem. A cidade não oferecia exatamente o esperado, mas eram felizes com o que possuíam.
Amy tinha três anos quando sua irmã mais nova nasceu. Deram a ela o nome de Bonnie, era um lindo bebê e muito parecida com Amy. Todos estavam felizes, mas algo estava errado com Amy.
Amy deixou de ser o centro das atenções com a chegada da nova irmã. Isso não a incomodou na verdade, a menina de três anos possuía um novo amigo, um amigo que ela não podia ver, mas que conversava com ela e contava histórias. Muitas vezes Sarah encontrou Amy fora da cama de madrugada, sentada no chão, sussurrando para as paredes. Quando comentava o ocorrido com o marido, este sempre dizia que era comum que Amy possuísse um amigo imaginário, Sarah não estava tão certa disso.
A casa dos Lee ficava ao lado de uma densa mata com árvores altas onde animais viviam e pássaros noturnos cantavam a noite. Certo dia quando Sarah foi acordar a filha pela manhã e não a encontrou na cama, saiu desesperada procurando-a pela casa. Horas mais tarde com a ajuda da polícia a encontram perdida na mata enroscada numa cerca densa de espinhos. Ninguém sabia dizer como Amy conseguira sair de casa pois todas as portas estavam trancadas e as janelas eram altas demais para pular. Por Deus, a garotinha tinha pouco mais de três anos!
Quando encontraram Amy, levou muito tempo para que conseguissem tirá-la dos espinhos. Eram tão densos e afiados que todos ficaram perplexos sem compreender como ela tinha conseguido se meter lá. Quando enfim chegaram até ela, perceberam que ela possuía os olhos abertos, mas não piscavam. Estava em transe, ou em choque, como o médico disse para os pais depois de examiná-la.
- Ela só precisa de um pouco de repouso e tudo ficará bem. – disse o doutor depois de retirar alguns espinhos de seus braços e fazer curativos nos cortes de seus pés, pernas e pulsos. Mas nada ficou bem. Na verdade as coisas começaram a piorar.
Amy tinha ataques durante a noite, onde acordava gritando dizendo que alguém queria machucá-la, mas nunca tinha ninguém no quarto. Durante o dia a menina não brincava mais com os irmãos, ou se quer se aproximava da bebê, ela desenhava. Seus desenhos eram sempre iguais: a família ao fundo, Amy sozinha e uma sombra que a observava. Certa vez Sarah se desesperou ao ver um desenho onde Amy estava dormindo em sua cama e uma sombra alada flutuava sobre ela, como se observasse seu sono. Os pais conversaram com Amy sobre os desenhos, mas Amy sempre dizia que não se lembrava de tê-los desenhado. Atormentados, os pais procuraram um médico que recomendou que a garotinha fizesse sessões permanentes de terapia.
Durante as sessões Amy sempre ficava muito nervosa quando perguntado sobre os desenhos ou o porquê de conversar sozinha com as paredes. O médico administrou para Amy doses diárias de calmantes que a deixavam na maior parte do tempo sonolenta. Isso diminuiu os incidentes e o tempo passou.
3 anos se passaram.
Os pais de Amy ainda se perguntavam porque o destino lhes foi tão cruel, dando-lhes uma filha perturbada. Porque era assim que todos enxergavam Amy. Aos 6 anos a garota não falava com as pessoas, não brincava, não se envolvia com os pais. Na escola, Amy amedrontava as outras crianças, algumas crianças choravam em sua presença. Não demorou muito para que a escola pedisse aos pais que a tirassem dos estudos e aconselhou-os a contratar um professor particular. Dessa forma Amy ficava ainda mais excluída do mundo, sempre sozinha com olhos perdidos, murmurando palavras desconhecidas ao vento.
Certa vez a mãe de Amy a encontrou debaixo da cama, ria como se conversasse com alguém, cantava palavras em uma língua que a mãe jamais ouviu antes. Pelo menos não daquela forma. Como a família Lee vivera na Itália a vida toda e levaram sempre uma vida religiosa, era completamente comum a eles ouvirem rezas e preces em Latim, mas não era um simples Latim que Amy murmurava, era algo arcaico, algo que a garota não tinha como saber. Pelo amor de Deus, ela só tinha 6 anos!
O pai de Amy começou a cogitar seriamente a ideia de interná-la num hospital especializado em pessoas com deficiências mentais, mas a mãe jamais aceitou. Doía a idéia de aceitar que fracassaram em tentar salvar a filha. Descobririam futuramente que interná-la era a melhor opção. Descobririam da pior forma possível.
Uma cadeia de acontecimentos terríveis tomou forma dentro da casa dos Lee. O cachorro da família, Bubby, foi encontrado enforcado na árvore ao lado da janela do quarto de Amy. Obviamente não poderia ser a menina, afinal a arvore era um imenso Carvalho, não haveria como ela alcançar ali. Uma semana depois, Amy acordou gritando dizendo que algo queimava dentro dela, mas quando sua mãe chegou a temperatura a garota congelava.
Gritos e choros se tornaram constante dentro da casa, Amy sempre murmurava, as vezes gritava dizendo que a voz não parava de falar, mas nunca havia ninguém falando. Sarah pediu a John que chamassem um padre para conversar com a filha, passava por sua cabeça, e mesmo que ela tentasse com todas as forças tirar esse pensamento de lá, que Amy pudesse estar sendo perturbada por algum espírito ou entidade maligna. John disse que a idéia era absurda e proibiu a esposa de tocar no assunto novamente.
-Ela está doente – gritou ele – por Deus! Ela precisa de um médico não de um padre! Então, na véspera de completar 7 anos, aconteceu algo que mudou completamente a vida de todos, inclusive de Amy.
Amy acordou de madrugada, mas de alguma forma não podia mover o próprio corpo, uma voz soava em sua cabeça, alguém falava com ela de dentro de seu corpo. Apavorada, ela lutava, mas não conseguia se libertar. Amy viu seu próprio corpo levantar e rastejar pelos corredores da casa, observou enquanto suas mãos puxavam Bonnie para fora da cama. A menina assustada, seguiu Amy, mas aquela não era Amy, não mais. Amy tentou gritar quando suas mãos pegaram uma faca na gaveta da cozinha, tentou conter a si mesma quando tapou a boca da irmã para que não gritasse e chorou sem derramar uma lágrima, gritou sem proferir um som, quando viu o sangue da irmã morta em suas mãos. Uma risada animalesca saiu de seus lábios, e então como que numa nuvem de fumaça negra, foi liberta e pode então gritar por seus pais.
John e Sarah gritaram desesperados quando viram o que a filha havia feito. Num momento de ódio, John partiu para cima da filha, mas foi contido pelos vizinhos que invadiram a casa e se depararam com a cena horrível.
A família Lee estava destruída. Sarah carregaria a culpa da morte da filha Bonnie pelo resto da vida, assim como John a culparia por não tê-lo deixado internar Amy.
Assinar:
Comentários (Atom)

